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Retratos da Miséria

Rio de Janeiro

Diante do isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, muitas pessoas com trabalhos informais ficaram sem condições de conseguir o seu próprio sustento e começaram a passar fome. Além disso, itens de higiene e limpeza eram essenciais para se conter a disseminação do coronavírus, mas como famílias que mal tinham dinheiro para comer iriam comprar sabão, shampoo, detergente, álcool gel…? Assim, o Movimento União Rio lançou a campanha RioContraCorona, gerida pelo Instituto Phi, Banco da Providência e Instituto Ekloos. Com as doações em dinheiro da população, desde o dia 24 de março até o momento (15 de julho), mais de 240 mil famílias de 237 comunidades cariocas vêm recebendo alimentos e produtos de higiene e limpeza. Aqui, você conhece as histórias de algumas beneficiárias desta ação.

Cinthia, da Favela Gogó da Ema

Existe uma Uganda aqui no Brasil. Metade da população brasileira, quase 104 milhões de pessoas, vive com no máximo R$ 413 por mês, com 13,5 milhões de miseráveis que vivem com até R$ 145 mensais.

As Ugandas cariocas estão em muitos lugares. No Gogó da Ema, no bairro de Guadalupe. Na Pedra do Sapo, no Complexo do Alemão. Ou numa área que de tão maltratada é conhecida como “Fim do mundo”, no bairro de Costa Barros. Está em muitas comunidades que estão à sombra do poder público há décadas.

Chintia Rodrigues mora na Favela Gogó da Ema. Ela foi uma das beneficiadas com a cesta básica e o kit de material de limpeza e higiene da campanha RioContraCorona, do Movimento União Rio. A faxineira de 35 anos (na foto, com a cesta na mão, ao lado da filha) mora num barraco de madeira com o marido Júnior e cinco filhos, de 1 a 15 anos. A mais velha, de 16, saiu de casa e está esperando o primeiro neto de Chintia.

A renda mensal da família é de R$ 300, das faxinas que Chintia faz num prédio. O marido, desempregado, antes da pandemia de Covid-19 fazia bicos tirando entulho de obras com sua charrete. Agora, as obras pararam.

“É muita boca pra comer, a gente já estava sem nada”, disse Chintia, que ia preparar o macarrão que veio na cesta para o jantar.

A pandemia de Covid-19 acabou nos colocando de frente para o pai e mãe desempregados, para a criança sem comida e sem escola, para o idoso sem um teto pra morar. Chegou a hora de voltarmos os olhos para a nossa gente. Se você quer fazer parte dessa corrente de solidariedade, faça sua doação.

Kelly, de Campo Grande

Em Comari, sub-bairro de Campo Grande, Kelly Cristina e sua família dependiam das doações de roupas usadas da vizinhança para vender no brechó que montaram na porta de casa e obter alguma renda para pagar contas e comprar comida. Mas com o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, ela não recebe mais doações e ninguém aparece para comprar. E a fome, mal milenar, assombra.

Kelly, de 31 anos, mora com o marido, dois filhos, de 6 e 13 anos, e uma enteada, de 15. Antes da pandemia, as crianças eram atendidas por uma organização social local, o NEAC – Núcleo Especial de Atenção à Criança, onde participavam de programas de educação e artes. Lá, Kelly recebeu o cartão pré-pago carregado com R$ 200 da campanha RioContraCorona, do Movimento União Rio, e comprou comida para a família.

“Tenho sentido muita tristeza por conta de toda essa dificuldade que estamos passando, já teve dia de não ter nada o que comer. Mas sou muito grata ao NEAC e às organizações que levam doações para o Neac, sem eles não sei como poderíamos sobreviver”, diz ela.

Dona Arlete, do Morro da Quitanda

Na casa com piso de cimento e paredes sem emboço numa viela do Morro da Quitanda, em Costa Barros, Dona Arlete Paula de Oliveira, 59 anos, mora com sete familiares: dois de seus quatro filhos, uma nora, quatro netos. “E Deus”, ela diz.

Antes da pandemia de Covid-19, a miséria já espreitava a família. A única renda fixa é o benefício de prestação continuada de um salário mínimo mensal que um dos filhos de dona Arlete recebe, por incapacidade permanente – há anos, ele foi diagnosticado com o mal de Alzheimer. O outro filho, às vezes, conseguia um bico. Agora, não mais.

“Costumamos comer só arroz e feijão. Quando não tem nem isso, comemos mingau de fubá”, conta Dona Arlete, acrescentando que a preocupação maior é quando falta leite para a neta caçula, de dois anos.

Ela recebeu a cesta básica e os produtos de higiene e limpeza da campanha RioContraCorona, do Movimento União Rio, através da ONG Recriando Raízes, que atua na região.

María, de Guaratiba

A definição clássica de refugiado é “o imigrante que sofre de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, política ou grupo social “. No entanto, a Acnur, agência da ONU para refugiados, já incorpora as características de uma crise humanitária: fome, ausência de serviços básicos e perda de renda – interpretação que abarca, por exemplo, a população que foge da Venezuela por conta da crise generalizada no país. Caso da família de Maria Alejandra Escobar, que há dois anos veio para o Brasil, viveu um ano em Roraima e então mudou-se para o Rio.

María vive com o marido e oito filhos pequenos num casa alugada em Guaratiba, bairro que tem o 118º pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da lista de 126 bairros do município. O casal vivia na Venezuela da venda de legumes, frutas e verduras, mas com a crise política e econômica, perdeu tudo. Eles foram para Roraima, mas também lá acabaram morando na rua e tirando sobras de comida do lixo para comer. Conseguiram vir para o Rio e, desde março, com a ajuda da Mawon – ONG que promove a integração de imigrantes em vulnerabilidade no Brasil, através da educação, da cultura e da geração de renda – o marido de María trabalha num supermercado, com salário líquido de R$ 1.110.

“Mas pagamos aluguel de R$ 600, luz e gás, então não sobra muito para comprar comida, fraldas e leite. Cinco crianças estavam na escola e se alimentavam lá, mas agora estão em casa e não conseguimos o auxílio emergencial do governo”, conta.

Ainda assim, María considera a situação da família melhor que quando viviam na Venezuela:

“Eu amava meu país, que é lindo, mas há problemas de abastecimento de alimentos e a população está desesperada. Aqui, há pessoas muito boas que nos ajudam, como vocês, com essas cestas básicas”.

Dona Cláudia, de Santa Cruz

Há oito anos, Cláudia Aparecida da Silva, de 54 anos, teve o terceiro AVC, que a deixou com sequelas – ela precisa da ajuda de uma muleta para andar. Mas, como até hoje não conseguiu nenhum benefício do governo, não deixou de trabalhar como catadora de lixo reciclável para se sustentar. Até a pandemia de Covid-19.

“Trabalhava por conta própria, catando lixo nas ruas e vendendo para cooperativas. Tirava R$ 500, R$ 600 por mês. Agora, com o isolamento, estou sem renda”, conta Dona Cláudia, que é analfabeta.

Mãe de três filhos já adultos, um deles desaparecido, a catadora mora sozinha numa casa de um cômodo na comunidade de São Fernando, em Santa Cruz. O barraco, com chão de terra batida e paredes sem emboço, tem goteiras quando chove e um vaso sanitário numa área que nem telhado tem. Ela espera por doações de material de construção para terminar a casa. 

“Minha filha às vezes ajuda, mas ela também é catadora de lixo e está sem renda. O pessoal da (ONG) Fios da Terra é quem tem me ajudado com as cestas básicas da campanha do Movimento União Rio”. 

Sobre a crise e as dificuldades econômicas, ela diz que “confia em Deus que vai ficar tudo bem”:

“Já sobrevivi a tanta coisa, estive numa UTI três vezes. Não vai ser isso que vai me derrubar”.  

Carla, da Chatuba

Num quarto de uma casa de cômodos, no bairro da Chatuba, município de Mesquita, Carla Cristina Martins mora com o marido Jefferson Martins e suas quatro filhas, com idades entre 3 e 12 anos. O banheiro é compartilhado com os ocupantes dos outros oito quartos da habitação coletiva. Jefferson sustenta a família trabalhando como coletor de lixo – ele recebe um salário mínimo (R$ 1.045).

Antes da pandemia de Covid-19, Carla acordava quando o sol nascia para arrumar as quatro meninas – as duas mais velhas iam para a escola pela manhã e, à tarde, para o Instituto Mundo Novo, uma instituição sem fins lucrativos que oferece projetos educacionais, culturais e profissionalizantes para crianças e jovens da região. Já as duas mais novas iam para a ONG pela manhã, onde frequentavam a creche, e passavam a tarde em casa com a mãe.

“Agora, com as quatro crianças em casa o dia inteiro, os gastos com alimentação aumentaram. Graças a Deus contamos com o Mundo Novo, que nos ajuda com doações, como as cestas básicas, e ainda passa atividades para as meninas fazerem em casa”.

Carla é uma das beneficiárias da campanha RioContraCorona, do Movimento União Rio.

Angélica, de Manguinhos

Ana Cristina, de 7 meses, tinha uma irmã gêmea, Ana Clara. Mas as bebês nasceram prematuras e, com um mês, Ana Clara acabou morrendo. Ana Cristina é a caçula de Angélica Gomes, que mora em Manguinhos, numa casa de apenas um cômodo com cinco filhos, que cria sozinha. Ela tem seis, mas o mais velho, de 13, mora com a irmã.

O pai das crianças maiores foi assassinado e o segundo companheiro, pai das bebês, foi embora. Desde que perdeu o emprego de ajudante de cozinha num restaurante, há quatro anos, Angélica não conseguiu mais emprego. Sustenta a família com o Bolsa Família (R$ 291), mais uma pensão de R$ 218 que recebe pelo filho mais velho, o único que foi registrado pelo pai – ele teve filhos com outras mulheres e o valor é dividido entre eles.

Para compor a renda, Angélica costuma catar latinhas para vender para a reciclagem, mas diz que com a pandemia de Covid-19, até isso ficou mais difícil. Além disso, as crianças estão em casa e a demanda por alimentos aumentou. Através da ONG local Origem Amorim, Angélica ganhou duas cestas básicas da campanha RioContraCorona, promovida pelo Movimento União Rio.

“Não consegui o cartão alimentação nem cesta básica pela escola. A bebê tem anemia falciforme, só pode tomar o leite Nan, que é caro. Graças a Deus, há pessoas boas no nosso caminho, como o pessoal da Origem Amorim, que trouxe as cestas básicas, além de fraldas, leite e lenço umedecido, e a dona de uma pensão próxima, que às vezes traz comida para minhas crianças”.

Jaqueline, do Final Feliz

Na comunidade com o sugestivo nome de Final Feliz, no Complexo do Chapadão, Jaqueline Lindozo Silva, de 37 anos, tenta sobreviver. Ela e o marido, Marcos, estão desempregados e vivem de bicos – ela cata recicláveis e ele faz umas capinas. E era assim que sustentavam a filha Yasmin, de 13 anos. Com a pandemia, o pouco virou quase nada.

Jaqueline tem o Bolsa-Família, mas o benefício está bloqueado: seu outro filho, Wendel, de 14, que mora com a avó materna no Morro da Pedreira (próximo ao Chapadão, mas dominado por uma facção rival), parou de frequentar a escola no ano passado sem que ela soubesse. Este ano, Jaqueline descobriu e tentou matricular o menino, mas não conseguiu vaga.

Ela tem ainda outra filha, Luana, de 21 anos, que também mora com a avó. A moça é bombeira e estudante de Direito, para orgulho da família, mas o salário vai todo para pagar a faculdade.

A pandemia de Covid-19 preocupa Jaqueline, que é diabética, mas ela fica aflita principalmente por causa da filha Yasmin, que tem bronquite asmática.

Há três anos, o barraco onde a família morava pegou fogo. Com a ajuda da comunidade, eles conseguiram um outro barraco para morar, mas não tem banheiro e eles têm de usar o quintal mesmo.

“Perdemos tudo. Sou muito grata ao pessoal do Museu do Graffitti, que ajudou a tirar meus documentos, me ajudou com doações e agora me deu as cestas básicas dessa campanha RioContraCorona, do Movimento União Rio”.

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“A fome era maior que a curiosidade”

Rio de Janeiro

Depois da escola, as gêmeas Maria Luiza e Maria Clara, de 9 anos, têm a agenda cheia: oficinas de inglês e de informática, balé, esportes e reforço pedagógico se alternam às tardes. Elas também brincam, claro, e se desenvolvem cada vez mais em aspectos como criatividade, imaginação, cooperação e comunicação. São miúdas para a idade, mas nem de longe se parecem com quem eram quando chegaram ao NEAC – Núcleo Especial de Atenção à Criança, em Campo Grande, cinco anos atrás.

“A fome era maior que a curiosidade e as irmãs tinham dificuldades de aprendizagem. Eram arredias e desconfiadas”, conta Selma Pacheco, diretora de projetos do NEAC, que faz atendimento a 200 crianças e adolescentes.

A equipe de serviço social realizou uma visita domiciliar e observou que a casa onde as Marias moravam com a mãe, desempregada, e com três irmãos adolescentes, não possuía banheiro.

Uma campanha batizada de “João de Barro” foi iniciada para a construção do banheiro da casa e algumas outras melhorias urgentes, como instalação de piso no quarto e aquisição de camas. Tudo comprado com doações e executado com mão-de-obra voluntária.

A mãe foi encaminhada para uma vaga de trabalho e em pouco tempo a vida desta família se transformou, com impacto direto no rendimento escolar de Maria Luiza e Maria Clara.

No NEAC, as gêmeas são participantes muito ativas do Mercadinho Ecológico do Projeto TransformAção – Transformando Lixo em Educação. Elas levam garrafas PET, latinhas de alumínio e outros materiais recicláveis para trocar por eco-reais, que são usados para adquirir brinquedos e materiais escolares.

“Hoje, as Marias estão mais motivadas, com mais autoestima e, principalmente, felizes. Elas colaboram, respeitam os amigos e se concentram nas oficinas. Isso nos leva a refletir sobre como pequenas, mas importantes intervenções na vida de uma família podem afetar todo o seu contexto”, conclui Selma.

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5 documentários brasileiros sobre iniciativas que mudam vidas

Rio de JaneiroSão Paulo

A vida é cheia de momentos que nos dão “cliques” sobre alguma realidade que, até então, desconhecíamos. É como se um véu saísse da frente dos nossos olhos e então passamos a enxergar coisas com mais clareza. Por isso, no Dia do Cinema Brasileiro, o Instituto Phi fez uma lista de documentários nacionais que têm esse poder: abrem nossa cabeça para alguns temas sensíveis da realidade brasileira ou mesmo mundial, com histórias inspiradoras de pessoas que tomaram consciência de seu próprio poder de transformação e estão mudando vidas.

Quem se importa (2013)

Disponível para aluguel no Vimeo: http://bit.ly/2WOVuuu

Dirigido pela brasileira Mara Mourão, o longa metragem registra a trajetória de 18 empreendedores sociais, homens e mulheres que têm como ponto de partida uma demanda social a atender (do analfabestimo à produção de energia limpa) e, como método, a ação. Filmado em sete países, a produção pretende estimular jovens que, como muitos personagens do documentário, estão tentando dar uma nova cara ao mundo, mais justa e sustentável.

Conectados Transformamos (2014)

Disponível gratuitamente no YouTube: http://bit.ly/2IW6egJ

O filme, organizado pela Social Good Brasil, apresenta seis histórias de pessoas que decidiram agir pela mudança que desejam ver no mundo. São histórias como a do Projeto Integrar, que prepara alunos para ingressar nas universidades, e do Banco de Maricá, um programa de moeda social. Inspiração e impulso para quem pensa em empreender socialmente.

CenaRIO: Sustentabilidade em Ação (2016)

Disponível gratuitamente no YouTube: http://bit.ly/2KqSYUB

O documentário produzido pelo Centro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável do PNUD foi feito por 30 estudantes cariocas que catalogaram iniciativas que mostram a força empreendedora do povo brasileiro – gente que passa longe de celebridades do mundo tecnológico ou inovadores com Ted Talks famosíssimas. Os personagens são 16 microempreendedores que conseguiram incorporar práticas sustentáveis aos seus negócios diários, da arquitetura ao comércio, passando por moda e artesanato.

Nunca me Sonharam (2017)

Disponível no YouTube para compra ou locação: http://bit.ly/2WQAQKE

Lançado em 2017, o documentário brasileiro dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes discute a situação da educação pública do país a partir da visão de jovens de dez estados brasileiros. A pluralidade das juventudes, a formação de identidade na adolescência e as pressões para tomarem parte na sociedade são questões bem exploradas por este documentário inspirador.

Histórias da Fome no Brasil” (2017)

Disponível gratuitamente no YouTube: http://bit.ly/31KB2dg

O filme mostra uma cronologia da fome no país.  Do Brasil Colônia, onde foram plantadas as sementes das desigualdades sociais, até as políticas públicas que culminaram na saída do Brasil, em 2014, do Mapa da Fome divulgado pela ONU. O filme aponta o pensamento daqueles que “nadaram contra a corrente”, como Josué de Castro, Dom Helder, Betinho e tantos outros, que acreditaram que a fome era um mal reversível, ocasionada pelos homens e suas políticas. Quando foi finalizado, o filme não previa que o Brasil voltaria aos patamares de Vxtrema pobreza e estaria sob sério risco de voltar ao Mapa da Fome.

“Não deixe a Peteca Cair” (2016)

Veja o trailer no Vimeo: http://bit.ly/2MVdHC7

Quando Sebastião resolveu transformar um terreno íngreme e lamacento em quadra de badminton para ensinar as crianças da comunidade da Chacrinha, Zona Oeste do Rio, ele foi chamado de louco. O esporte era praticamente desconhecido e pouco praticado no país. Quase 20 anos depois, o Brasil participa pela primeira vez dessa modalidade nas Olimpíadas, graças a uma equipe apaixonada e a uma metodologia única e inovadora que une o esporte ao samba carioca. O documentário dirigido por Kátia Lund e Fifi Fialho e produzido pela Jabuti Filmes é o primeiro de uma série que apresenta projetos culturais e esportivos de cinco comunidades cariocas como alternativa de geração de renda e “commodities sociais”. Além do Miratus Badminton, são eles o Circo Crescer e Viver, o Nós do Morro, o Jongo da Serrinha e o Cinema Nosso.

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Por que podemos doar mais – e melhor

Rio de JaneiroSão Paulo

Luiza Serpa

“Há quem alegue não conseguir escolher uma ONG para a qual doar dinheiro, com medo de que ela não seja idônea. Eu digo: ‘Escolha com o mesmo rigor usado para contratar o CEO da sua empresa”. A frase é do médico e filantropo José Luiz Egydio Setúbal, um dos herdeiros do Itaú, e foi dita em entrevista recente para a Revista Veja. Quando li, me perguntei se ele trabalhava escondido dentro de alguma gaveta no Instituto Phi.

Desde 2012, respiro o tema doação diariamente – passo meu tempo tentando criar mecanismos, métodos, ferramentas de comunicação, eventos e ações para aproximar as pessoas desse tema e, consequentemente, aproximá-las delas mesmas e do lugar onde moram. Como criar esse senso de comunidade em cada um? Como aumentar a confiança que dizemos faltar?

Setúbal, que está à frente de projetos filantrópicos na área da saúde, recentemente tentou criar no Brasil um movimento similar ao The Giving Pledge, fundado por Bill Gates e Warren Buf­fett. Ao seu lado, estava o empresário Elie Horn (fundador da construtora Cyrela), que já faz parte do The Giving Pledge. Queriam incentivar milionários brasileiros a doar 20% de sua fortuna. Não conseguiram convencer ninguém.

A desigualdade de renda no Brasil vem crescendo e atingiu, no primeiro semestre de 2019, o maior patamar já registrado. Segundo pesquisa divulgada semana passada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), o índice que avalia o nível de desigualdade sobe consecutivamente desde 2015 e, em março deste ano, atingiu 0,6257 – numa escala de 0 a 1, quanto mais próximo do 1, maior é a desigualdade.  Por fim, desde 2012, a renda acumulada dos mais ricos aumentou 8,5%, enquanto a dos mais pobres caiu 14%.


Retrato da desigualdade: favela de Paraisópolis ao lado do vizinho rico, o Morumbi /Shutterstock

Concordo totalmente quando Setúbal diz que inventamos desculpas o tempo todo para não doar, e não falo só de dinheiro; falo de tempo, de interesse por algum tema. Na entrevista, o filantropo destaca que muitos ricos alegam que “não conseguem escolher uma ONG com medo de que ela não seja idônea”. Pois eu digo que existe o Phi e várias outras organizações que podem guiar investidores sociais para que façam boas escolhas e acompanhem os resultados.

Participo de diversos grupos que me fazem acreditar que, juntos, podemos resolver nossos problemas sociais. Temos inteligência e tecnologia para isso. O que nos impede? Por que é tão difícil para as pessoas mais ricas doarem mais, de forma recorrente e comprometida com uma determinada causa?

Na última semana, me perguntaram: o que fazer com R$ 2 milhões no Rio de Janeiro? Distribuir os recursos para diferentes projetos? Eu sugeriria que não. Escolha o problema que quer resolver, entenda ele com profundidade, se comprometa e ataque.

O cobertor é muito curto no Brasil. A sociedade precisa se organizar. E se importar com o outro é um caminho sem volta – quando você começa a enxergar o que acontece ao redor, não consegue mais parar. Mas o primeiro passo é observar seus valores e motivações e acreditar: filantropia é amor à humanidade.

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Investimento que deu asas ao sonho de ser astronauta

Rio de JaneiroSão Paulo

O céu talvez não seja o limite para o carioca Luiz Fernando Leal, de 25 anos. O jovem que saiu do Lins de Vasconcelos há quatro anos para estudar engenharia aeroespacial no Florida Institute of Technology, nos Estados Unidos, é filho de um professor de educação física e uma motorista de Uber, que não tinham recursos para custear seus estudos. Luiz Fernando tem a possibilidade de sonhar tão alto graças a muito esforço pessoal, sim, mas também ao patrocínio de um investidor social, através do Instituto Phi.

Em 2007, quando tinha 13 anos, Luiz Fernando assistiu a um show aéreo e decidiu que queria ser piloto de caça. Passou a estudar de domingo a domingo para tentar uma vaga na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), em Barbacena (MG). Passou nos testes escritos, mas a miopia jogou por terra os planos do carioca, considerado incapacitado para a profissão de piloto. Desistiu e acabou indo cursar eletrônica no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet).

Lá, conheceu o mundo das olimpíadas científicas. Ganhou uma medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e resolveu participar da Mostra Brasileira de Foguetes. A partir daí, seu sonho ganhou mais altura: em vez de piloto de aviões, resolveu que faria engenharia aeroespacial e trabalharia com foguetes. No Brasil, poucas universidades ofereciam o curso na época – havia uma turma inicial no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e uma na UnB (Universidade de Brasília), mas ele começou a sonhar em ir para os Estados Unidos e trabalhar na Nasa. O problema é que ele não falava nada de inglês.

Para conseguir o objetivo, colocou como meta aprender inglês em dois anos e meio. Estudava gramática sozinho em casa e, para melhorar a fluência, ouvia a emissora americana ‘CNN’. Então, começou a procurar faculdades americanas que ofereciam engenharia aeroespacial.

Foi admitido em três universidades americanas, com auxílio parcial em duas: Florida Institute of Technology e Illinois Institute of Technology. No Brasil, fez Enem e passou para engenharia eletrônica na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e para sistemas de informação na PUC-Rio, privada. Nessa última, Luiz Fernando conseguiu bolsa do Prouni.

“Mas quando recebi a notícia da Florida Tech, que fica perto do Cabo Canaveral (onde há uma base de lançamento de foguetes da Nasa) e que está no top 10 das melhores faculdades de engenharia aeroespacial do mundo, não tive dúvidas”, diz.

Luiz Fernando conseguiu bolsa de 50%, num curso que custava US$ 60 mil por ano, e a família não tinha como custear o restante. A solução foi fazer uma vaquinha pela internet, o crowdfunding – em dois meses e meio, ele levantou R$ 30 mil. Mas o valor não incluía moradia e alimentação e o estudante não conseguiria arcar com esses custos. Então, decidiu trancar o curso por um ano e mandou e-mail para todos que o ajudaram para devolver o dinheiro. Ninguém quis – todos mandaram mensagens de incentivo para que ele não desistisse.

Para não ficar parado, Luiz Fernando se inscreveu na PUC-Rio. Quase um ano depois, perto do prazo final para decidir se retomaria a Florida Tech, amigos da faculdade conseguiram uma reportagem sobre o estudante no jornal de maior circulação do Rio de Janeiro. Foi assim que a história foi parar no Instituto Phi, que fez a ponte entre Luiz Fernando e um investidor-anjo que queria patrocinar os estudos do jovem.

Luiz Fernando com a camisa da Florida Tech na frente  da base da NASA: o jovem sonha com a oportunidade de trabalhar ou conduzir pesquisa na agência espacial

Luiz Fernando sonha com a oportunidade de trabalhar ou conduzir pesquisa na NASA

Atualmente, além do curso de engenharia aeroespacial, que termina em maio do ano que vem, Luiz Fernando está fazendo uma especialização conjunta em Matemática Computacional e estudando russo. Ele também foi aceito para um curso de verão do Massachusetts Institute of Technology, o MIT Summer Research Program (MSRP), que começa no próximo mês.

“É um programa que dá a oportunidade de se fazer pesquisa acadêmica no MIT durante o verão para estudantes que são considerados minorias. No meu caso, por ser latino e de família de baixa renda, pude concorrer às vagas. O programa é muito intenso, e tem o intuito de ajudar os estudantes a se prepararem para fazer um PhD e seguir carreira como pesquisador. Além da pesquisa, o MIT proporciona alojamento, passagens, mentores, grupos de pesquisa e acesso total aos laboratórios relacionados à cada tema. É realmente uma oportunidade única.”

Depois de se graduar, os planos de Luiz Fernando são cursar pós-graduação nos EUA – ele já foi aceito na Florida Tech, mas também vai aplicar para outras universidades – e sonha com a oportunidade de trabalhar ou conduzir pesquisa na NASA. Por isso, pretende cursar um doutorado ou até pós-doutorado. “Eu me vejo desenvolvendo tecnologias ou aplicações para uso no espaço ou em outros corpos celestes, e tenho um sonho pessoal de me tornar um astronauta em prol do Brasil”, diz o estudante, que vai mais longe e fala em ser o primeiro astronauta a ir à Lua. “Caso o Brasil nos próximos anos volte a fazer parte dos acordos internacionais e redirecione investimentos, poderá ter direito a mandar seus próprios astronautas. E neste caso, eu poderia ter a chance de fazer pesquisa e trabalhar na base em solo lunar”.

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